O sono ocupa 1/3 das nossas vidas e é um comportamento essencial para a homeostase orgânica integral, o que inclui a saúde da pele. Hábitos de vida regulares, que incluem alimentação equilibrada, atividade física frequente e qualidade de sono adequada são fundamentais para a saúde do indivíduo, e a importância destes fatores para a saúde da pele vem ganhando cada vez mais destaque na pesquisa científica.
Na sociedade contemporânea, com acesso facilitado ao excesso de informações e uso de telas, o impacto à qualidade de sono vem crescendo, acompanhado de aumento da incidência de distúrbios de sono, como insônia, apneia obstrutiva do sono, distúrbios de ritmo circadiano, entre outros.
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Alterações da qualidade de sono, especialmente acompanhadas por privação de sono e ausência de sono reparador, podem repercutir negativamente na saúde sistêmica e na saúde da pele, tanto do ponto de vista clínico quanto estético. Isto sugere que o impacto da privação de sono na qualidade da pele vai muito além da aparência estética de uma noite mal dormida.
Os efeitos da privação de sono em doenças dermatológicas merecem ser investigados. Dentre estas, doenças inflamatórias e/ou mediadas por componentes imunes, como dermatite atópica, psoríase e vitiligo, podem ser agravadas pelas situações de estresse e pró-inflamação geradas pela privação crônica de sono.
O ciclo circadiano é um relógio interno do organismo, que regula funções essenciais do corpo, como temperatura, produção hormonal e sono. Diversos sistemas apresentam funcionamento regulado por este ritmo. Na pele, não é diferente.
A pele é o maior órgão do corpo humano, e apresenta estrutura complexa, que envolve diversos tipos celulares, estrutura anatômica, percepções sensoriais, resposta neural e hormonal, entre outros fatores bioquímicos que se conectam entre si e com o organismo.
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Assim como o organismo como um todo, a pele também segue esse ritmo: à noite, há reparação da pele; durante o dia, suas funções são destinadas à defesa, que envolve integridade da barreira física e potencial imunológico. Dormir em horários desregulados, ou ter um sono fragmentado, dessincroniza esse ciclo e prejudica os processos de regeneração celular (1).
A pele, por ser um órgão externo, representa a interface principal entre o meio ambiente e o organismo interno, o que faz com que esse órgão seja capaz de espelhar tanto agressões externas quanto internas. Portanto, uma noite de sono mal dormida reflete o cansaço e a falta de reparação do organismo.
Sinais de fadiga facial, como olheiras, aumento da oleosidade, ressecamento, e acentuação de rugas podem se manifestar no outro dia, e aumentar progressivamente em casos de privação crônica de sono, acentuando os sinais de envelhecimento.
Diversos parâmetros objetivos da pele têm comportamento circadiano e são regulados pelo sono, como hidratação, perda de água, produção de sebo, eritema, entre outros fatores fundamentais para melhor integridade da pele e resposta terapêutica (2).
A integridade preservada da pele pode aumentar a eficácia da ação de medicamentos dermatológicos (2), o que reforça a necessidade de melhor qualidade de sono para otimizar a reparação do DNA celular no período noturno, conforme sugerido previamente em estudo do nosso Grupo (3). Não só a eficácia das medicações e produtos tópicos pode ser aumentada, como também pode ocorrer maior adesão ao tratamento da pele.
A qualidade de sono, portanto, precisa ser priorizada na população, como fator protetivo para a saúde como um todo, inclusive para a saúde da pele e melhor qualidade de vida.
Recentemente, a privação de sono foi descrita como um dos componentes de um grupo de fatores que influenciam no envelhecimento da pele, os chamados “expossomos” (4,5).
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Além do sono, fatores como tabagismo, poluição, radiação solar, alimentação inadequada e fatores hormonais interagem como agressores da pele e aceleram o processo de envelhecimento.
A pele responde como órgão complexo, tanto do ponto de vista estrutural, como hormonal e sensorial. Portanto, a tentativa de disfarçar o cansaço com o uso de maquiagem, por exemplo, não vai modificar o que a pele está sofrendo neste processo de desgaste celular como consequência da privação de sono.
Estudos científicos nesta linha evidenciaram que indivíduos privados de sono mostraram mais tristeza, menor sensação de atratividade e se sentiram menos saudáveis, associado a sinais de cansaço na face, como olheiras e rugas acentuadas, em relação aos indivíduos que tiveram noite de sono adequada (6,7).
Isto sugere o quanto a autopercepção visual e autoaceitação prejudicadas podem influenciar negativamente no convívio e interações sociais; o que reforça a importância de sono adequado não só para a aparência estética, mas para a saúde da pele como órgão complexo e sensorial, que impacta fortemente na qualidade de vida.
O sono de qualidade adequada é fundamental para o processo de reparação do corpo, o que auxilia na manutenção da saúde integral, incluindo o melhor funcionamento da pele.
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Durante o sono, especialmente nas fases de “sono profundo”, nosso corpo entra em um processo de reparação diário. É nesse momento que ele é capaz de promover equilíbrio hormonal, imune, metabólico e celular, reduzindo a concentração de radicais livres resultantes do estado de estresse oxidativo do organismo. Dentre os hormônios, destaca-se a melatonina, que tem papel importante na regulação de sono e tem influência do ciclo circadiano, além de desempenhar ação anti-inflamatória e antioxidante.
Substâncias resultantes da ativação do sistema adrenérgico, como catecolaminas, e cortisol (conhecido como “hormônio do estresse”), encontram-se aumentadas, devido ao estresse derivado da privação crônica de sono. Elas não só impactam a homeostase orgânica integral, como também interferem na regeneração celular.
O cortisol alto é um dos fatores que interferem na produção e manutenção das fibras colágenas da derme, que conferem firmeza e estrutura à pele (1,8). As fibras elásticas também são comprometidas, que desempenham papel estrutural em conjunto com as fibras colágenas, para melhor aparência e consistência da pele.
O estresse crônico da privação de sono, associado ao processo acelerado de envelhecimento, comprometem a firmeza e elasticidade da pele; assim como diversos aspectos fisiológicos que promovem a integridade da barreira cutânea, viço e saúde da pele, como hidratação, termorregulação e regulação das glândulas produtoras de sebo (1,5).
O desequilíbrio desta interação pode acentuar os sinais de envelhecimento na pele, manifestados por meio de rugas, flacidez, manchas e olheiras. Portanto, o balanço dos hormônios melatonina e cortisol, promovidos pela sincronização circadiana e sono de melhor qualidade, é fundamental para melhor saúde da pele e geral do indivíduo.
Cuidados com a pele
A rotina básica e fundamental de cuidados com a pele para promover melhor integridade e aparência da pele requer o uso diário de protetor solar antes da exposição ao sol (com reaplicação a cada 2 horas), uso de hidratantes adequados, e uso de agentes antioxidantes e antissinais.
Estudos prévios do nosso Grupo evidenciaram que o estresse e aumento de glicocorticoides (com destaque ao cortisol) causados por privação de sono aceleram a quebra do colágeno (1,8). Ainda, evidências apontam que o potencial de regeneração celular e proteção contra danos ao DNA celular atinge seu ápice no período de sono, especialmente se o sono é restaurador (3).
Fatores fisiológicos, como temperatura e vascularização cutâneos podem aumentar a capacidade de absorção de produtos na pele durante a noite, o que reforça o potencial terapêutico e preventivo contra os efeitos do envelhecimento na pele.
Reforça-se a importância do uso de protetor solar regularmente, que auxilia no combate aos sinais de fotoenvelhecimento; e, principalmente, protege contra o câncer de pele.
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Cuidados com o sono
Em relação ao sono, mudanças na rotina fazem diferença para a promoção de melhor qualidade de sono. A prática chamada “higiene de sono” inclui hábitos que auxiliam a obter um sono melhor, e podem auxiliar no combate à aceleração do envelhecimento. Dentre elas, estão dormir entre 7 e 9 horas por noite e respeitar o ritmo circadiano.
Recomenda-se dormir e acordar nos mesmos horários, inclusive nos fins de semana, para manter a regularidade do organismo. Evitar cafeína após o final da tarde e alimentos pesados perto da hora de dormir. Promover um ambiente ideal para facilitar a indução ao sono: quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável, e evitar uso de telas. A presença de luz natural pela manhã ajuda a regular o relógio biológico. Praticar meditação ou respiração lenta antes de deitar também podem ser medidas que auxiliam a preparação do corpo para o sono restaurador.
Em relação à pele, o uso de hidratantes adequados no rosto e corpo e séruns ou cremes antissinais de envelhecimento são hábitos de skincare que podem auxiliar o processo de relaxamento ao dormir e, ainda, promover melhor saúde da pele no seu maior período de reparação.
A pele reflete a saúde de dentro para fora, e o sono de boa qualidade é um pilar fundamental para a melhor aparência da pele, maior autoestima e melhor autoaceitação da imagem. A rotina de cuidados com a pele (skincare) pode trazer resultados ainda mais satisfatórios se associada com hábitos de vida saudáveis, incluindo alimentação, ingesta de água, atividade física e sono reparador.
1. Kahan V, Andersen ML, Tomimori J, Tufik S. Can poor sleep affect skin integrity? Med Hypotheses. 2010;75(6):535-7.
2. Lyons AB, Moy L, Moy R, Tung R. Circadian Rhythm and the Skin: A Review of the Literature. J Clin Aesthet Dermatol. 2019;12(9):42-45.
3. Xerfan EMS, Andersen ML, Facina AS, Tufik S, Tomimori J. Sleep loss and the skin: Possible effects of this stressful state on cutaneous regeneration during nocturnal dermatological treatment and related pathways. Dermatol Ther. 2022;35(2):e15226.
4. Passeron T, Krutmann J, Andersen ML, Katta R, Zouboulis CC. Clinical and biological impact of the exposome on the skin. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2020 Jul;34 Suppl 4:4-25.
5. Passeron T, Zouboulis CC, Tan J, Andersen ML, Katta R, Lyu X, Aguilar L, Kerob D, Morita A, Krutmann J, Peters EMJ. Adult skin acute stress responses to short-term environmental and internal aggression from exposome factors. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2021;35(10):1963-1975.
6. Axelsson J, Sundelin T, Ingre M, Van Someren EJ, Olsson A, Lekander M. Beauty sleep: experimental study on the perceived health and attractiveness of sleep deprived people. BMJ. 2010;341:c6614.
7. Sundelin T, Lekander M, Kecklund G, Van Someren EJ, Olsson A, Axelsson J. Cues of fatigue: effects of sleep deprivation on facial appearance. Sleep. 2013 Sep 1;36(9):1355-60.
8. Kahan V, Andersen ML, Tomimori J, Tufik S. Stress, immunity and skin collagen integrity: evidence from animal models and clinical conditions. Brain Behav Immun. 2009;23(8):1089-95.