Muito se fala sobre a importância de manter uma alimentação saudável e equilibrada, mas você já ouviu falar dos alimentos ultraprocessados e dos efeitos que eles causam na nossa saúde?
Em 2014, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP) desenvolveu a classificação Nova, que categoriza os alimentos de acordo com seu grau de processamento industrial e não apenas pela composição nutricional (como carboidratos, proteínas ou gorduras).
Segundo essa proposta, existem 4 grandes grupos: alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários processados, alimentos processados e alimentos ultraprocessados. Essa última categoria é definida como “formulações de substâncias obtidas por meio do fracionamento de alimentos do primeiro grupo (in natura)” (Nupens-USP, 2014). Ou seja, não são alimentos propriamente ditos, mas combinações de substâncias isoladas ou modificadas, com a adição de ingredientes e aditivos artificiais disponíveis exclusivamente em ambiente industrial.
É importante ressaltar que, embora todo ultraprocessado seja industrializado, nem todo alimento industrializado é um ultraprocessado. Produtos processados também são industrializados, mas podem ser feitos em casa, como pães, queijos e conservas, ao passo que os ultraprocessados dependem totalmente da indústria para sua produção. Surpreendentemente, mais de 50% da alimentação da população mundial é composta por ultraprocessados. No Brasil, a proporção é menor, mas ainda relevante, chegando a quase 20% das calorias que ingerimos diariamente.
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Uma forma prática de saber se um alimento é ultraprocessado ou não é observar a lista de ingredientes. Quando há 5 ou mais componentes, especialmente se incluem aditivos como corantes, aromatizantes, conservantes, emulsificantes e ingredientes com nomes pouco familiares como maltodextrina, benzoato de sódio, lecitina de soja ou tartrazina, é provável que se trate de um ultraprocessado. Outra característica muito peculiar desse tipo de alimento é o sabor extremamente palatável, o que facilita o consumo exagerado. Isso se deve às quantidades excessivas de açúcar, sódio e gorduras que possui, que ativa áreas do cérebro ligadas à recompensa de forma semelhante às drogas de abuso, aumentando a compulsão alimentar.
Historicamente, a industrialização dos alimentos foi impulsionada pelo crescimento populacional, pelos avanços tecnológicos e pela necessidade de produzir em larga escala. Além de suprir a demanda crescente, os alimentos ultraprocessados também trouxeram consigo maior praticidade e, por isso, conquistaram espaço nas rotinas cada vez mais aceleradas. Com o aumento da carga de trabalho e a pressão por produtividade, a conveniência desses produtos foi rapidamente incorporada aos hábitos da população. Em pouco tempo, passamos da escassez ao excesso e esse cenário se tornou um dos maiores desafios da saúde pública global.
Desde a criação da classificação Nova, diversas pesquisas têm comprovado os riscos associados ao consumo frequente de ultraprocessados. Estudos apontam uma forte ligação com o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão, câncer e até mesmo doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Mais recentemente, o impacto desses alimentos sobre o sono também tem ganhado destaque nas investigações científicas, incluindo estudos do nosso grupo de pesquisa. Achados da literatura indicam que a piora dos sintomas da apneia do sono poderia estar relacionada com o consumo de glutamato monossódico, um realçador de sabor comum na indústria alimentícia e bastante presente na cozinha dos brasileiros. Em crianças, há indícios de que corantes artificiais podem contribuir com o desenvolvimento de distúrbios de sono, além de hiperatividade, déficit de atenção e irritabilidade. Há ainda evidências de que os ultraprocessados podem prejudicar a saúde reprodutiva, promovendo desregulação hormonal e disfunção erétil por meio do desequilíbrio da microbiota intestinal. Por outro lado, a privação de sono pode aumentar a preferência por alimentos mais calóricos, ricos em açúcar e gordura, e de fácil acesso, características dos alimentos ultraprocessados.
Assim, manter o equilíbrio entre uma boa qualidade de sono e uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, reduzindo o consumo de processados e evitando ao máximo os ultraprocessados, além da prática regular de atividade física, deve ser a base para quem busca saúde, disposição e qualidade de vida.
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Vivemos em um ritmo acelerado, no qual a pressa frequentemente nos afasta do que realmente importa: o cuidado com a saúde. É necessário refletir constantemente sobre as prioridades que estabelecemos. Quando escolhemos correr contra o tempo todos os dias, corremos o risco de comprometer a própria vida no futuro. A conscientização sobre os efeitos que hábitos simples, mas significativos, podem exercer é o primeiro passo para mudanças consistentes. Pequenas decisões no dia a dia, como dormir um pouco mais cedo ou optar por alimentos mais naturais, têm o poder de promover grandes transformações a longo prazo.