Muito estereotipado, o sonambulismo é um fenômeno relativamente comum especialmente entre crianças, mas pode persistir também na vida adulta.
Apesar de geralmente não apresentar consequências graves para os pacientes, o quadro é cercado por muitas dúvidas e preocupações. Por isso, neste artigo explicamos tudo que você precisa saber sobre sonambulismo, suas causas, o tratamento e como agir na prática. Por exemplo: afinal, podemos ou não acordar uma pessoa sonâmbula?
Confira a resposta para todas essas perguntas a seguir.
O sonambulismo é um distúrbio de comportamento que se origina durante o sono quando, por uma alteração no funcionamento normal do cérebro, apesar de continuar dormindo, o indivíduo consegue desempenhar algumas atividades motoras próprias do estado de vigília como caminhar, comer e falar.
Durante a noite normal acontecem ciclos intercalados de sono até o despertar. O processo do despertar depende de um mecanismo neurológico complexo que ocorre em vários níveis. Alguns deles são o despertar autonômico (há mudança do ritmo de funcionamento da frequência cardíaca, da pressão arterial e da atividade do metabolismo e dos órgãos), o despertar cortical (alterações nas ondas cerebrais que indicam a atividade no cérebro) e o despertar cognitivo (consciência e emoções).
O sonambulismo é um desajuste entre esses níveis de despertar, quando somente uma parte das funções cerebrais desperta, mas não se tem uma consciência semelhante à de quando estamos acordados, com memórias e planejamento consciente. Esse comportamento anormal durante o sono faz parte de um grupo de distúrbios de sono conhecido como parassonias.
Parassonias são eventos físicos indesejáveis que ocorrem durante o sono. Entre esses eventos, podem ser citados movimentos, comportamentos ou atividades do sistema nervoso autonômico.
As parassonias ocorrem quando coexistem dois ou mais dos estágios de consciência (vigília, sono NREM e sono REM). Nesses momentos, chamados de “estágios de dissociação”, as funções cognitivas altamente especializadas ficam diminuídas, mas a função motora é em parte preservada.
É dentro desse contexto que se enquadra o soniloquismo (falar durante o sono) e o sonambulismo.
De acordo com a Classificação Internacional dos Distúrbios de Sono, as parassonias são divididas segundo o quadro a seguir:
A. Parassonias do sono não REMB. Parassonias do sono REMC. Outras parassoniasA1. Alterações do despertar
a. Despertar confusional
b. Sonambulismo
c. Terror noturnoB1. Distúrbio comportamental de sono REMC1. Síndrome da cabeça explodidaA2. Distúrbio alimentar associada ao sonoB2. Paralisia isolada e recorrente do sonoC2. Alucinações relacionadas ao sonoB3. Distúrbio de pesadelosC3. Enurese do sonoC4. Parassonia secundária a doençaC5. Parassonia secundária a medicaçãoC6. Parassonia não especificada
O sonambulismo é mais comum em crianças que em adultos e tem mais chance de ocorrer em pessoas que tenham um histórico familiar: estudos com gêmeos efeitos genéticos substanciais tanto na infância como na idade adulta e 40% das pessoas com sonambulismo possuem pelo menos doi outros parentes com esse distúrbio.
A faixa etária em que o fenômeno se manifesta com mais frequência é durante a idade escolar. Entre as crianças de 5 a 12 anos de idade, estima-se que de 15% a 40% tenham apresentado algum episódio de sonambulismo pelo menos uma vez na vida.
Em compensação, o sonambulismo tende a sumir após a adolescência e somente de 0,5% a 4% dos adultos apresentam esse comportamento. A recorrência em adultos pode estar associada a altos níveis de estresse. Um levantamento do Instituto do Sono mostrou que 3% dos paulistanos têm sonambulismo.
As causas do sonambulismo ainda não são bem explicadas. Nas crianças, acredita-se que ele ocorra como parte do processo de maturação do cérebro.
Já nos adultos, observa-se que os episódios de sonambulismo podem ser desencadeados por hábitos e situações ou doenças específicas. São exemplos:
O comportamento sonâmbulo normalmente aparece de uma a duas horas após o adormecer.
O diagnóstico do sonambulismo leva em conta o relato dos pacientes e das pessoas que convivem com ele. Além disso, o resultado da polissonografia, exame que registra as reações do organismo durante o sono, e do eletroencefalograma são dados importantes para respaldar a avaliação do médico.
Leia também:O que é a polissonografia e quando é indicado fazer?
Os principais riscos relacionados ao sonambulismo são eventuais acidentes por ações que possam ocorrer quando o paciente age dormindo.
Existem estudos que investigam a relação entre o sonambulismo na infância e a maior propensão a desenvolver transtornos de ansiedade durante a vida adulta, mas ainda é preciso avançar nas pesquisas.
O sonambulismo é um distúrbio benigno de sono, que tende a desaparecer espontaneamente após a infância. O tratamento só se torna necessário quando os episódios são frequentes e interferem na qualidade de sono do paciente ou da família e quando podem oferecer risco de acidentes ou constrangimento para o paciente.
O primeiro passo é adotar hábitos de higiene do sono, como:
Leia também: Sono e alimentação: qual é a relação?
Técnicas de relaxamento, meditação, acupuntura e psicoterapia também podem ajudar a controlar esse distúrbio.
Quando as medidas não medicamentosas não são suficientes, o médico pode avaliar o benefício de recorrer aos medicamentos que combatem os estados de tensão e ansiedade e atuam sobre o padrão de sono.
Já nos casos de crises de sonambulismo associadas a doenças, como apneia do sono, refluxo gastroesofágico e febre, o tratamento adequado dessas condições, que funcionam como gatilho, tem se mostrado como o caminho mais bem sucedido. Por isso, é essencial que todo paciente consulte seu médico para que o caso seja analisado de forma personalizada e, assim, o tratamento seja direcionado.
Durante os episódios de sonambulismo, os pacientes podem se levantar dormindo, caminhar, falar e realizar alguma atividade motora durante o sono. Geralmente, depois de acordados, não se lembram de nada – ou da maior parte – do que aconteceu durante esses momentos.
O quadro de sonambulismo exige atenção para evitar que o indivíduo se machuque ou realize alguma atividade inadequada. Isso porque, em casos raros, o distúrbio pode envolver comportamentos mais complexos, como sair de casa, dirigir ou urinar fora do banheiro.
Por isso, é fundamental tomar precauções para deixar o ambiente mais seguro. São exemplos:
Talvez esse seja o tema de maior discórdia no senso comum relacionado ao sonambulismo. Muitos acreditam que não se pode acordar o paciente durante um episódio. Caso sejam acordados, eles certamente despertarão confusos e podem até ficar momentaneamente agressivos devido à dificuldade de entender o que está acontecendo. Porém, não existe risco real para a saúde do indivíduo ao acordá-lo, e isso pode ser necessário para prevenir alguma situação perigosa em que ele se encontre.
O mais comumente indicado, no entanto, é evitar estimular ainda mais o paciente (como conversar com ele), pois isso apenas aumentaria o estado de excitação e prolongaria a duração da crise.
Caso se depare com uma pessoa caminhando enquanto dorme, a recomendação é tocá-la suavemente, em silêncio, e conduzi-la, com calma e sem acordá-la, novamente à cama para que retorne ao sono normal.